Pedincha
No dia em que a minha mãe me deixou, a minha infelicidade foi crescendo e a minha sabedoria acompanhou-a. A fome apertava e apercebi-me que tinha de conseguir arranjar comida. Não valia a pena pedir ajuda ao meu pai porque ele há muitos anos se sacrificara ao alcoolismo.
Como tal, decidi sair às ruas, dedicar-me à pedincha, como alguns amigos meus faziam. E até conseguiam uns trocos…
Algumas pessoas me dão comida, outras moedas, tabaco, bebidas, bofetadas.
Os anos passam e continuo aqui, neste corpo de onze anos, sem ir à escola e a experimentar múltiplas experiências…
Criticava, odiava, repugnava tudo o que o meu pai fazia, mas hoje até o compreendo. Chego a ser bem melhor que ele e ainda tenho tanto para aprender.
Beber alegra o espírito, fumar desperta-me a alma, roubar sustenta-me e não preciso de mais nada para saber que por pouco teria sido uma criança igual às outras.
