Arrependimento
Não teria começado a comer se ela não chegasse…Sentou-se ao meu lado e não disse nem uma palavra. Preferiu o silêncio e eu respeitei a sua decisão.
Sabia que ainda estava chateada, ofendida, magoada e não era fácil perdoar a minha ofensa.
Mastigava, mas a comida não tinha sabor. Esperava ansiosamente pelas suas primeiras palavras. Sabia o que me esperava, mas este dia um dia tinha de chegar. Ia explicar-lhe o que aconteceu?
Acabou de comer e já se levantava para sair quando lhe segurei na mão para a deter e disse-lhe:
- Não vás embora. Temos que conversar…
- Não disseste nada em todo o jantar. Tenho que ir.
Comecei a engendrar uma forma de lhe dizer que a tinha enganado, que lhe tinha roubado o dinheiro que me confiara porque me tinha tornado gananciosa e má. Mas porque haveria de lhe dizer o que ela já sabia. Nem podia devolver-lhe o seu dinheiro…
- Não mereço o teu perdão
- Já passaram mais de vinte anos… Soube que estavas a morrer e queria perdoar-te…
Nem lhe consegui dar um beijo. Sai daquela sala com o amargo de boca que me acompanhava nos últimos dias. Liguei à minha mãe e disse-lhe que tínhamos falado e que ela me tinha perdoado.
Sorriu. Eu segui em frente, pensando em tudo o que gostava de não ter feito. Pensando que se o médico não me tivesse declarado um “estado terminal” nem estaria a reflectir sobre o meu passado…
